A Gata e o Dragão
Uma amizade improvável e um luto que virou fábula
O luto é um sentimento estranho. Quando você compreende e respeita o seu tempo, ele normalmente se transforma em algo novo, dentro da gente. Foi o luto por meu gatinho de quase vinte que levou a uma fábula de dragões, bruxas e gatos que não mentem.
O Gatolino partiu para o outro mundinho em dezembro de 2025, com quase vinte anos. Rabugento até o último dia e adorável, na mesma medida em que foi um guia pra mim (e bastante gente que o conheceu). Ele cuidava reclamando e ensinava do jeitinho dele paciência, amor e amizade.
A ausência dele levou às memórias e as memórias, a uma ideia. Foi desse silêncio que nasceu A Gata e o Dragão.
Eu já tinha uma ilustração antiga, de um gatinha e um dragão, lado a lado, dois seres que jamais se encontrariam de fato (acho). Olhei para aquele desenho depois da partida do meu gatinho e vislumbrei a história. Mas aí eu repensei: o gato será uma gatinha.
A semente veio da história medieval, que sempre me fascinou. Conta a história que, quando a Europa decidiu caçar bruxas, caçou também os gatos, vistos como seus companheiros mágicos. Sem gatos, os ratos se multiplicaram. E com os ratos, veio a peste. Tentar apagar a magia adoeceu o próprio mundo.
Peguei essa imagem e a misturei com tudo o que adoro em fantasia: bruxas, feéricos, fogo de dragão e castelos antigos cobertos de musgo. E aí nasceu uma fábula sobre um tempo em que o medo enfraqueceu a magia, e dois pequenos seres decidiram resistir.
Nossos três gatos inspiraram os três personagens: Draco, a gatinha cinza de olhos verdes que nunca mente, é a nossa Ágata Maria. Personalidade e visual. A luz alegre de todos os dias, traduzida em fábula.
Felix, o dragão pequeno de asas tímidas e coração grande, nasceu do Godofredo, nosso frajola gordo e gentil. Um dragão que não conhece o poder do próprio fogo.
E Gatinho Lino, o espírito felino mais rabugento e sábio que já existiu, é o Gatolino. O guia que escolheu não descansar, que volta sempre para manter os jovens na linha, resmungando que antigamente tudo era mais simples. Escrevê-lo foi minha forma de não o deixar partir por inteiro.
A corrente é fina como o medo
No centro da fábula tem uma corrente. Felix vive preso por ela, convencido de que não pode quebrá-la. Draco olha para aquilo e diz a verdade: a corrente é fina como o medo, e ele só continua nela porque acredita que não pode se soltar.
É a ideia que trago em quase tudo o que escrevo: o que fomos já não existe. O que tememos ser ainda não chegou. Resta o agora, e o agora é o único lugar onde a escolha acontece. Felix descobre isso quando ruge contra o próprio reflexo e se reconhece: ele é o que escolhe ser, não o que teme.
A magia da história nasce aí — na ternura que insiste e na coragem de atravessar o medo por aquilo que se ama ou o que se busca.
Então, escrever A Gata e o Dragão foi transformar um sentimento de perda em mito e saudade em algo que vai ficar na imaginação, pois as histórias seguem em quem ler.
E, no fim, é o que Draco diria, com a certeza de uma gata que só diz a verdade: ninguém jamais perde ninguém. Carregamos sempre conosco.
E se o Gatinho Lino estiver ouvindo isto, ele vai resmungar que finalmente alguém contou a história direito.
Entre mito e ternura, A Gata e o Dragão constrói uma história simbólica onde diferenças se unem. Uma narrativa sobre convivência, afeto e a força que existe na amizade mais improvável.




